terça-feira, 13 de setembro de 2011

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Auto-retrato


















Auto-retrato

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage
Poesias de Bocage
Lisboa, Comunicação, 1992 (4ª ed.)

sábado, 25 de setembro de 2010

Susan Sontag















«Conheço agora alguma da minha capacidade… Sei o que quero fazer com a minha vida, tudo isto sendo tão simples, mas tão difícil para mim sabê-lo no passado. Quero dormir com muitas pessoas – quero viver e odeio morrer – não vou ensinar, nem tirar um mestrado depois de fazer a licenciatura…
Não tenciono deixar que o meu intelecto tome conta de mim, e a última coisa que quero fazer é admirar o conhecimento ou pessoas que detêm o conhecimento! Não quero saber da agregação de factos de ninguém, excepto quando for um reflexo [da] sensibilidade básica que necessito… Tenciono fazer tudo…»

Susan Sontag, in “Renascer” Quetzal, 2010
trad. Nuno Guerreiro Josué

sexta-feira, 17 de setembro de 2010


















A filosofia ocupa-se de problemas fundacionais insusceptíveis de resolução científica, recorrendo à análise minuciosa, teorização intensa, formulação rigorosa e argumentação imaginativa. Um matemático só se ocupa de problemas que possam ser resolvidos recorrendo a técnicas matemáticas; o filósofo procura saber o que é um número. Um físico procura determinar vários aspectos da constituição íntima da matéria que podem ser determinados matemática e experimentalmente; um filósofo procura saber o que é exactamente um particular, por oposição a um universal. Um artista pinta quadros, pressupondo o valor da arte e a sua natureza; o filósofo pergunta-se qual é o valor e a natureza da arte. Um sociólogo pergunta o que pensam as pessoas acerca do aborto, tendo em conta a sua origem social, grau de instrução ou filiações religiosas e políticas; o filósofo faz a pergunta fundacional de saber se o aborto é moralmente permissível e porquê.

Desidério Murcho

sábado, 11 de setembro de 2010

Madame de Staël


















Dona de uma personalidade brilhante, escritora, poetisa, activista política, e feminista, Anne-Louise-Germaine, Madame Baronesa de Staël-Holstein, é geralmente reconhecida como a primeira filósofa política. Filha única de um rico banqueiro e de uma escritora suíça, herdou dos pais a paixão pelas letras e pela filosofia política, e um grande interesse pela coisa pública. Viveu num período crítico da história da França, compreendendo os anos de Luís XVI, da Revolução Francesa, da era napoleónica, e da restauração da monarquia dos Bourbons com
Luís XVIII. Ela teve um importante papel na corrente minoritária de livres-pensadores moderados favoráveis a uma monarquia constitucional, mas que saíram derrotados tanto pela feroz maioria radical vitoriosa na Revolução, quanto por Napoleão e pelos restauradores da monarquia.
A perseguição que sofreu de Napoleão – ele representava a negação de todas as liberdades que ela defendia – fez dela uma figura mártir e heroína, que alentou a resistência ao imperador em Paris, na Suíça e em toda a Europa. Deixou livros e artigos, e também inúmeras cartas que escreveu aos seus amantes declarando as suas frustrações e os seus anseios de felicidade.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010